
Ao mesmo tempo que o bosque de pinheiros e cedros se vai tornando menos denso, aparece recortado, ao longe, o monte Farinha, encimado pela N. Sra da Graça. Os carros alinhados produzem uma espiral de reflexos que começa no sopé e termina no topo do monte.
Leio o nosso post mais recente: https://osmeustrilhos.pt/de-volta-fisgas-de-ermelo/
No dia em que a Volta a Portugal, ou melhor, a “Meia-Volta a Portugal”, sobe ao mítico alto da Sra. da Graça, nós descemos as fragas íngremes e rugosas do Alvão até às Fisgas de Ermelo.
As paisagens são de tirar o fôlego, ouve-se o rugido da água a furar a pedra e as fisgas aparecem do nada. Um desnível vertiginoso e, entre o xisto lascado, surge o Rio Ôlo, que visto de cá de cima e nesta altura do ano, não parece mais do que um fio de água. As fisgas de Ermelo são a maior queda de água de Portugal e uma das maiores da Europa.
Já diz o povo e com razão: depois da tempestade vem a bonança. Se no dia anterior a chuva fez das suas, hoje, o sol, bem lá no alto, tosta a pele e estraga as fotos…
Enquanto descemos a encosta, as escarpas tornam-se mais medonhas, isto é, mais íngremes. Deslizamos, pé-ante-pé, saltando de pedra em pedra, numa tentativa de não resvalar, até ao miradouro.
Aqui, um aglomerado de turistas, mais estrangeiros que portugueses, deliciam-se com a espectacularidade das vistas.
Não há qualquer infra-estrutura de apoio, não há um percurso pedestre sinalizado que circule as fisgas, enfim… Imagino que seria se está paisagem natural tivesse “nascido” em qualquer outro sítio da Europa, estaria quase deitada ao abandono como aqui? O que de melhor temos nesta nesga de terra debruada de mar tem de ser aproveitado, rentabilizado… A paisagem é viva e o turismo é dinâmico. É possível ter um turismo sustentável, mesmo aqui, no meio das fragas!
Arrastamos as pernas monte acima e deixamos o Ôlo correr, pacatamente lá no fundo, como sempre fez.
Miguel Torga e as Fisgas:
Ermelo, Marão, 2 de Outubro de 1959 – Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche…
Miguel Torga, Diário VIII (1959)
Dicas:
Se estiver disposto a caminhar, saiba que tem várias opções consoante a distancia que quer percorrer.
- Percurso circular não marcado que começa e termina na aldeia de Varzigueto. São cerca de 10km e com uma dificuldade média. O ficheiro .GPX pode ser descarregado aqui. Ver o trilho aqui.
- Percurso de Lamas d´Ôlo até às fisgas, como é indicado aqui
- Uma opção mais leve passa por deixar o carro nas coordenadas 7°51’33.37″W 41°22’57.72″N (ver mapa) e seguir a pé até às fisgas. Ida e volta, cerca de uma hora (3 km). No entanto conte com uma subida acentuada.
- Para os mais acomodados, pode conduzir até ao final da estrada asfaltada e deixar o carro aqui: 41°22’33.72″N 7°52’10.69″W – mesmo ao lado do miradouro.
Se o dia convidar, poderá refrescar-se nas várias lagoas que o ria forma, antes de se lançar fragas abaixo (ver mapa) Coordenadas: 41°22’40.79″N 7°51’33.97″O
Localização
[googlemaps http://maps.google.pt/?ie=UTF8&t=h&ll=41.374426,-7.87003&spn=0.009661,0.012875&z=15&output=embed&w=300&h=300]
Mais informações:
http://www.lifecooler.com/Portugal/natureza/QuedasdeaguadasFisgasdoErmelo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cascata_de_Fisgas_do_Ermelo
